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Economia das Trocas Simbólicas – Pierre Bourdieu – parte III

A divisão silábica procurou ser fiel ao PPT Generator original

Vamos refletir, agora, sobre os atos de fala, os discursos, as narrativas que são fundamentais para a nossa existência como seres humanos. A eficácia de um discurso está no fato de funcionar como DOXA, isto é, como uma verdade evidente sobre a qual nunca pensamos.

É o que Wittgenstein, em Investigações filosóficas, quis dizer:

“Aquilo que se sabe quando ninguém nos interroga, mas que não se sabe mais quando devemos explicar, é algo sobre o que se deve refletir. (E evidentemente algo sobre o que, por alguma razão, dificilmente se reflete)”.

 

Em primeiro lugar, é preciso destacar que a nossa capacidade para falar depende de algumas competências específicas que desenvolvemos: uma Competência Técnica e uma Competência Social.

Nossa competência técnica aparece pela nossa própria condição humana: seres humanos podem falar, ou seja, tem os meios físicos necessários para produzir a fala.

No caso da competência social, ela é adquirida socialmente, uma vez que, a fala precisa ser aprendida. Mas falar não consiste apenas em emitir palavras organizadas em um certo código linguístico, mas também é preciso saber o que falar, com quem, quando e de que modo.

Trata-se de um ritual complexo que depende do desenvolvimento de certos tipos de sensibilidade. Vamos chamá-las de senso de oportunidade e senso de aceitabilidade.

  • O  Kairós ou o Senso de Oportunidade 
Nossa alma é Floripa… Todas as nossas cervejas são nomeadas de acordo com a nossa cultura.
​ Viver o agora é a missão da Kairós! O nome da cerveja deriva do grego e significa momento certo. 

Diziam os sofistas que, no aprendizado da arte de falar bem, é preciso estar atento para a percepção do momento oportuno da fala (kairós). Pouco importa o que dissermos se não for dito de maneira oportuna, no momento certo. Essa competência está relacionada como o (re) conhecimento da situação e do momento da fala.

  • Senso de Aceitabilidade

Se não falamos com qualquer um, de qualquer modo, sobre qualquer coisa, a qualquer momento, isso significa que a nossa fala pressupõe alguns rituais sociais ou jogos de linguagem.

Nesse caso, é importante lembrar que quando falamos, produzimos um produto muito especial que não está sujeito apenas a interpretação, mas, também, a avaliação.

Muitas vezes, a condição necessária para que o discurso seja aceito não está no entendimento que temos dele, mas do valor que damos a quem o pronuncia.

Portanto, qualquer discurso produz signos a serem interpretados, certamente. Mas, ao mesmo tempo, eles apresentam-se como signos de riqueza (são avaliados) e signos de autoridade (tem autoridade)

 

Vamos analisar, agora, o conceito de mercado simbólico:

Em primeiro lugar, todo discurso pressupõe pessoas que adotam um certo modo de falar (um habitus linguístico) e que se encontram em uma determinada situação social. Essa situação é chamada por Bourdieu de mercado simbólico, uma vez que, nele, a nossa fala pode ser valorizada ou não, pode sofrer concorrência, ser monopolizada etc.

Carregamos conosco um conjunto de disposições – uma espécie de memória – das nossas experiências com a fala em determinadas situações (falando com os pais, amigos, vendedores, professores, clérigos). Isso faz com que tenhamos condições de antecipar algumas reações das pessoas a quem nos dirigimos.

Quando produzimos um discurso, desenvolvemos também uma antecipação das condições em que aquele discurso será recebido. Essa antecipação, quando negativa, pode levar-nos a um conjunto de medidas de autocensura. Por outro lado, percebemos que algumas pessoas são boas em lidar com esses mercados.

Muitos acabam agindo como porta-vozes da opinião de uma série de pessoas em um mercado simbólico. Eles ou elas são capazes de falar como representantes de um grupo, colocam-se como um grupo falando e, assim, fazem com que determinados interesses e motivações ganham um lugar em meio às palavras e transforme-se em discurso que merece ser ouvido.

* * *

poder simbólico é um poder (econômico, político, cultural ou outro) que consegue ser alvo de reconhecimento, por isso, é preciso entender que se trata de um tipo de poder que não é físico (embora possa ter consequências reais). Ele é exercido no plano do sentido, na sua capacidade de gerar conhecimento e reconhecimento.

As palavras exercem, nesse sentido, um poder tipicamente mágico: fazem ver, fazem crer, fazem agir.

Mas essa magia, como toda outra, não pode ser explicada apenas por esse poder do produtor do discurso. É preciso ir além e reconhecer as condições sociais que possibilitam essa eficácia mágica das palavras.

Quem fala? Quem está autorizado a falar? De que lugar falamos?

Para completar, é preciso observar que esse poder das palavras só pode ser exercido sobre aqueles que estão dispostos a ouvi-las e a escutá-las – a crer nelas.

Vamos observar o que dizem as duas citações abaixo:

“…os agentes sociais e os próprios dominados estão unidos ao mundo social (até mesmo ao mais repugnante e revoltante) por uma relação de cumplicidade padecida que faz com que certos aspectos deste mundo estejam sempre além ou aquém do questionamento crítico” (Pierre Bourdieu em O que falar quer dizer)

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir”. Michel Foucault em Microfísica do poder. 



REFERÊNCIAS 

TEXTO-BASE

LINS, Daniel (org). Pierre Bourdieu: o campo econômico. Campinas (SP), Editora: Papirus, 200 (O que é falar? p. 51-57)

TEXTO COMPLEMENTAR

GIRARDI Jr, Liráucio. Pierre Bourdieu: Mercados Linguísticos e Poder Simbólico. Famecos, Porto Alegre, v. 24, n. 3, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2017

KARHAWI, Issaaf . Influenciadores digitais: conceitos e práticas em discussão. Revista Communicare. Volume 17 – Edição especial de 70 anos da Faculdade Cásper Líbero

Palestinians recognize Texas as part of Mexico – The Beaverton December 6, 2017 by Alex Huntley

LEMOS, André. A nova esfera conversacional. in Dimas A. Künsch, D.A, da Silveira, S.A., et al,
Esfera pública, redes e jornalismo., Rio de Janeiro, Ed. E-Papers, 2009,  pp. 9 – 30.


O dia em que relatos do primeiro assédio tomaram conta do Twitter – El País –  – 23/10/2015

TV peruana agora tem um noticiário em quéchua. Por que isso é um gesto político e social -Rafael Iandoli – Nexo 17 Dez 2016

Exército de fact-checking combate notícias falsas – Bianca Fortis, MediaShift | 06/11/17

 

Claire Wardle: combater a desinformação é como varrer as ruas – Observatório da Imprensa – Por Angela Pimenta em 14/11/2017 na edição 966


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