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Aula 1 – Representações: linguagem e sociedade

ATENÇÃO: todas as turmas já foram apresentadas ao nosso material do blog. 

Lembrando que este é o tema da próxima aula (algumas turmas estão iniciando a discussão e, outras, estão um pouco mais adiantadas)

A leitura da postagem, no mínimo, é obrigatória. Lembrem o que combinamos.

Visite os memes deste tema no “Tiozinho”

Em primeiro lugar, vamos refletir sobre a relação entre Natureza e Cultura e descobrir que a experiência humana envolve a nossa capacidade de produzir e reconhecer padrões simbólicos. Trata-se, também, da capacidade que temos de construir o mundo em que vivemos. O mundo humano é uma construção social.

O que isso significa? Que consequências tiramos dessa ideia? Quais são as principais críticas a essa separação entre Natureza e Cultura?


 

LINGUAGEM E SOCIEDADE

Terceira Margem do Rio – Caetano Veloso

George Steiner, crítico literário e escritor faz um série de observações sobre a importância da linguagem para o entendimento da experiência humana, pois é através dela que os homens declaram a sua humanidade.

Alguns animais são capazes de utilizar códigos sofisticados, mas é através da capacidade simbólica humana que o tempo aparece e o passado, o presente e o futuro podem ser pensados e vividos de uma forma muito específica.

Não existe um ser humano anterior à linguagem. Os tabus, as proibições, os interditos passam pela linguagem, uma vez que não posso proibir o que não posso nomear.

Antes de mais nada, precisamos destacar que a linguagem não tem por função gerar uma espécie de etiquetamento do mundo (para cada coisa um nome).

Usar a linguagem é desempenhar uma ação – participar de uma espécie de jogo muito particular. Além disso, é importante analisar o contexto em que a ação (a linguagem) é desenvolvida e os propósitos aos quais pretende servir.

Os jogos de linguagem não têm contornos precisos e as suas possíveis regras não exaurem e nem determinam, de uma vez por todas, as possibilidades das jogadas.

O zoon phonanta anda lado a lado com o zoon politikon. É a linguagem que me permite delimitar quem eu sou e o diálogo é sempre uma proposta de conhecimento e estranhamento mútuo.

Portanto, os interlocutores sempre fazem avaliações práticas do que vivem e jogam com recursos linguísticos e extralinguísticos de que dispõem em uma situação dada.

LINGUAGEM E MEMÓRIA

Wally Salomão - Vinheta 11 - O Rappa: O Silêncio Q Precede o Esporro

Para Giddens, a linguagem e a memória integram-se. A lembrança em sua forma individual não pode estar separada de um quadro coletivo da memória.

Como dizia a poeta estadunidense Muriel Rukeyser:

O universo é feito de histórias e não de átomos.

Para Levi-Strauss, a  linguagem é uma máquina do tempo.

Por meio dela, é possível criar uma tradição, algo que possa ser passado de uma geração a outra. Por meio das narrativas produzimos uma memória, um sentido do passado, um pertencimento.

Pensem a respeito dessa frase de Steiner:

A história, no sentido humano, é uma rede de linguagem arremessada para trás.

Ou, como dizia o poeta Wally Salomão (áudio acima):

A memória é uma ilha de edição!



AS REPRESENTAÇÕES DA SOCIEDADE

Vamos conhecer, agora, o trabalho de Howard S. Becker que é um sociólogo ligado à segunda geração de pesquisadores da Universidade de Chicago (Escola de Chicago) e que tem produzido uma série de estudos sobre a sociologia do desvio, a sociologia da arte e a sociologia da música.

Vamos ver como o sociólogo pensa a nossa capacidade de produzir “representações” ou “relatos sobre a sociedade”.

Quando lemos um romance, um livro de histórias, relatos etnográficos, tabelas estatísticas, filmes ou fotografias, estamos diante de certos tipos de representações do mundo em que vivemos ou imaginamos viver.

Sabemos que qualquer representação é sempre parcial, ou seja, é sempre “menor” do que aquilo que aconteceu. Algo sempre fica “de fora” no ato de descrever ou narrar.

A questão que nos colocamos, então, é a seguinte: que critérios devemos usar nas nossas escolhas e decisões a respeito do que pode ou não pode entrar em nossas histórias?

Precisamos saber, também, para que tipo de comunidade pretendemos compartilhar nossas representações. Com quem, em que meio e a partir de qual critério consideramos nossas escolhas e decisões boas o suficiente para aquele propósito.

Essas decisões dependem do tipo de comunidade interpretativa da qual participamos.

Uma comunidade interpretativa pode ser definida como: a) um organização de pessoas b) que se organiza regularmente c) em torno de representações padronizadas d) entre produtores e os usuários de seus produtos e) que as utilizam regularmente para um objetivo padronizado

Essa noção vem dos Estudos Literários, basicamente de Stanley Fish e Janice Radway. São grupos de leitores e escritores que acabam por compartilhar estratégias comuns de escrita e interpretação de certos textos ou gêneros textuais. São maneiras compartilhadas de interpretação de determinados textos. Não são individuais, são certas normas de intepretação.

Vejamos alguns exemplos: fãs de um determinado gênero musical, novelas, filmes, seriados.

QUATRO ELEMENTOS PRESENTES EM TODAS AS REPRESENTAÇÕES

Dando continuidade às análises de Howard S. Becker, vamos verificar que a produção de representações sobre a sociedade envolve quatro elementos fundamentais sobre os quais precisamos pensar.

O primeiro deles é o processo de SELEÇÃO: produzir uma representação sobre alguma coisa significa, necessariamente, excluir determinados elementos. Sendo assim, a primeira questão que aparece é: o que poderia ou deveria ser excluído? quem definiria isso?

Como vimos, a comunidade interpretativa tem uma papel importante nessas decisões.

Dando continuidade às nossas reflexões, nos deparamos, agora, com um novo desafio. Precisamos adequar nossas representações a determinados meios, ou seja, entramos no processo de TRADUÇÃO daquilo que estamos vendo, ouvindo, sentindo ou imaginando.

Traduzir significa transpor um conjunto de elementos para outro conjunto de elementos. Por exemplo: as minhas observações sobre o cotidiano viram poemas ou romances ou música. Por isso, somos obrigados a identificar ou produzir um tipo de “linguagem” adequada aos meios que temos à nossa disposição (escrita, audiovisual, hipertextual etc.). Podemos destacar aqui os estudos sobre gêneros textuais, também.

O ARRANJO é outro elemento fundamental presente em uma representação da realidade, uma vez que é necessário “organizar” de algum modo a narrativa. É preciso começar de algum lugar, seguir para algum lugar, dar início à história de algum modo. É interessante observar como o hipertexto (a capacidade de produzir diversos textos interligados por links) abre um conjunto de novas possibilidades de arranjo às narrativas (escritas e audiovisuais).

Na maioria das vezes, todos aqueles que trabalham com representações do nosso cotidiano precisam tomar decisões relacionadas aos elementos acima. O que não podemos esquecer é que o leitor, o ouvinte, o espectador ou o usuário dessas representações “interferem” no modo pelo qual essas escolhas são feitas.

Vamos ver como isso acontece.

Em primeiro lugar, produzimos representações para alguém (um perfil social qualquer baseado em dados ou um perfil imaginado do destinatário do nosso texto). O leitor, o ouvinte e o espectador estão presentes nas escolhas anteriores. Eles fazem parte dessa comunidade interpretativa.

Por outro lado, um livro, um programa de rádio, um filme ou um jogo só ganha existência diante de um usuário que o utiliza dentro de algumas expectativas e experiências particulares. Ele ou ela trazem a história para suas vidasO usuário precisa construir suas representações do mundo a partir das representações propostas pelos produtores (de notícias, novelas, filmes, jogos etc).

Chamamos esse momento de PROCESSO INTERPRETATIVO.


ARTIGO
 

TEXTOS-BASE

BECKER, Howard S. Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009 (cap. 1 e 2)

STEINER, George. Extraterritorial: a literatura e a revolução da linguagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. (Animal com Linguagem)




 
Regiane Regina Ribeiro. O FANDOM E SEU POTENCIAL COMO COMUNIDADE INTERPRETATIVA: uma discussão teórico-metodológica para os Estudos de Recepção.XXV Encontro Anual da Compós, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 7 a 10 de junho de 2016

 
Letícia Ferreira da Silva, Marcus Vinícius de Jesus Bonfim. RELAÇÕES PÚBLICAS E CULTURA DE FÃS: ESTUDO DO COMPORTAMENTO DOS FÃS BRASILEIROS DE K-POP NA INTERNET.
 


FILMES/SÉRIES

Werner Herzog. O Enigma de Kasper Hauser

François Truffaut. O garoto selvagem

Hal Ashby . Muito Além do Jardim

Anne with an E (série)






O DIA EM QUE A TERRA PAROU (Raul Seixas)

Essa noite eu tive um sonho/ De sonhador/ Maluco que sou, eu sonhei/ Com o dia em que a Terra parou/ Com o dia em que a Terra parou

Foi assim/ No dia em que todas as pessoas/ Do planeta inteiro/ Resolveram que ninguém ia sair de casa/ Como que se fosse combinado em todo/O planeta/

Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém ninguém/ O empregado não saiu pro seu trabalho/ Pois sabia que o patrão também não tava lá

Dona de casa não saiu pra comprar pão/Pois sabia que o padeiro também não tava lá/

E o guarda não saiu para prender/Pois sabia que o ladrão, também não tava lá/

E o ladrão não saiu para roubar/Pois sabia que não ia ter onde gastar/

No dia em que a Terra parou (êê)/No dia em que a Terra parou (ôô)/ No dia em que a Terra parou (ôô)/No dia em que a Terra parou

E nas Igrejas nem um sino a badalar/ Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá/ E os fiéis não saíram pra rezar/ Pois sabiam que o padre também não tava lá

E o aluno não saiu para estudar/ Pois sabia o professor também não tava lá/ E o professor não saiu pra lecionar/ Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

No dia em que a Terra parou (Ôôôô)/ No dia em que a Terra parou (Ôôô)/ No dia em que a Terra parou (Uuu)/ No dia em que a Terra parou

O comandante não saiu para o quartel/ Pois sabia que o soldado também não tava lá/ E o soldado não saiu pra ir pra guerra/ Pois sabia que o inimigo também não tava lá

E o paciente não saiu pra se tratar/ Pois sabia que o doutor também não tava lá/ E o doutor não saiu pra medicar/ Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

No dia em que a Terra parou (Ôôôô)/ No dia em que a Terra parou (Ôôô)/ No dia em que a Terra parou (Uuu)/ No dia em que a Terra parou


 

Os animais têm linguagem (vídeo)

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