Aula 10: Sociedades Disciplinares/Sociedades de Controle

Fernanda Bruno chama atenção para o fato de que no século XVIII as técnicas de cálculo, de produção de informação e conhecimento aproximam-se das técnicas de vigilância e controle. Foucault chega a usar o termo Biopolítica e Governamentalidade para falar desse processo.

A Estatística – a ciência do Estado – desenvolve novas técnicas de coleta e tabulação de dados sobre as populações, categorizando, classificando, hierarquizando, mapeando os mais diversos tipos de informações sobre elas.

As sociedades disciplinares enquadram-se nessa lógica em que produção de informação e as novas formas de produção de conhecimento e vigilância  articulam-se para no que ele chama de microfísica do poder.

Gilles Deluze, em um clássico posfácio de sua obra “Conversações”, faz um mapeamento das características das sociedades disciplinares (Foucault) e a sua transição para o que ele chama de “sociedades de controle”.-

Sociedade de Controle foi um termo inpirado por um escritor da chamada geração beat chamado William S. Burroughs ( o colóquio Squizo Culture de 1975 nos EUA).

É importante destacar que Foucault e Deleuze eram muito próximos e produziram diversas interlocuções.

Deleuze é o da esquerda; Foucault, o da direita. O Sartre, no meio, no fundinho

Em seu mapeamento das sociedades disciplinares (visão proposta por Foucault), Deleuze destaca os seguintes pontos de observação que a caracterizam:

  1. são sociedades em que a formas disciplinares ocorrem por confinamento (escolas, fábricas, manicômios, presídios)
  2. estão voltadas para a produção de padrões específicos de conduta, como se fossem moldes, capazes de garantir a produção de corpos dóceis e modeláveis 
  3. essas formas disciplinares organizam os corpos no espaço e no tempo de modos muito controlados (posições no espaço – fileiras, por exemplo – e horários para entradas e saídas bem delimitados)
  4. elas individualizam os indivíduos (por meio de números, por exemplo), mas ao mesmo tempo os massificam (somos mais um número entre outros – um modo de sermos classificados, catalogados e controlados em grande número). O que nos individualiza é o nosso número particular e a nossa assinatura
  5. elas organizam a forma como a propriedade é controlada (propriedade privada, copyright, patentes)
  6. sua tecnologia é analógica e a lógica é centrada na fábrica, na produção
  7. Para a sociedade disciplinares baseadas em confinamento, a resistência é muito específica: motins, greves, rebeliões etc.
“Brazil: o filme” (1985) –  Diretor: Terry Gilliam (essa foto é do CD – achei mais interessante)

A sociedade de controle – qualquer semelhança com a noção de liquidez de Bauman deve ser vista com muito cuidado – move-se por outra lógica, um outro arranjo de forças ou novos agenciamentos – na linguagem de Deleuze. O que as caracterizam são:

  1. o esvaziamento ou redefinição dos confinamentos e a crescente ampliação da vigilância baseada em movimento (GPS, tornozeleiras eletrônicas, celulares, tecnologias “mobiles”)
  2. Não se trata mais de produzir seres moldados. Sua lógica é a da onda, da modulação. Como um onda, sua lógica é flexível e oscilante. Ela se desloca constantemente. Não há fronteiras muito claras. Há borramento dos limites (veja o home office onde não se sabe mais onde começa a casa ou onde termina o trabalho – a possibilidade de acesso a qualquer momento por meio das tecnologias mobile, como os celulares – o estar “sempre disponível”)
  3. Todos são submetidos a controles e avaliações contínuas e formação permanente
  4. Sua lógica é a das tecnologias digitais e a sua “leveza” e “fluidez” econômica está relacionada à consolidação das “marcas”/empresas  (não mais focada na produção) – elas não tem fábricas, são “leves”, “fluídas” e estão voltadas para o produto, para a imagem, para as suas relações com os usuários.
  5. O acesso a esses espaços digitais se dá por meio de senhas, dados e códigos. A lógica do login, da conexão. Precisamos de um nome de usuário e a senha de acesso para ser inserido nesse mundo. Por segurança, essas senhas devem ser mudadas constantemente.
  6. As formas jurídicas tradicionais de propriedade começam a sofrer questionamento (creative commons, softwares livres, remixagem, streaming etc.)
  7. Para as sociedades disciplinares, as formas de resistência são outras: pirataria, gambiarras tecnológicas, recombinações, códigos open source, githubs, bit torrent)

Lucia Santaella destaca que estamos em um mundo de dados e de fluxos em tempo real, monitoramentos em movimento não só do que fizemos e fazemos. Eles podem servir de identificadores de padrões capazes de “prever” futuros comportamentos possíveis. Eles dependem de uma coleta massiva de dados de um modo muito pouco claro para os usuários, que são seus produtores. É o que se convencionou chamar de Big Data.

Os dispositivos de controle permitem também um monitoramento e autovigilância de nós mesmos – os wearables – que indicam nosso ritmo cardíaco, ritmo de passadas em uma caminhada e um conjunto de outras reações corporais. O limite entre as práticas de vigilância e o fornecimento de dados para a melhoria da experiência pessoal. Há, ainda, uma série de integrações entre esses dados pessoais, empresas e as pesquisas científicas sobre saúde (ver o artigo abaixo).  



Elias Cunha Bitencourt. WEARABLE TRACKERS E O RISCO OCULTO DO CONHECIMENTO DE SI ATRAVÉS DO DADO. UMA ANÁLISE DOS DOCUMENTOS ENDEREÇADOS AOS USUÁRIOS E INVESTIDORES DA FITBIT

Fitbit – Alta HR Activity Tracker + Heart Rate (Small) – Black $149.95


Esses  agenciamentos e seus dispositivos (sociedades de controle) produzem uma economia da abundância (de informação) que, consequentemente, produz um limite na capacidade humana para lidar com eles. Cada vez mais, passamos a sofrer ou passar pela mediação de filtros (algoritmos-bots). Nossos padrões de relevância e confiança passam a ser alterados.

Novos sistemas de gestão, curadoria e recomendação surgem. O risco da formação de “bolhas” baseadas em padrões de comportamento, gosto ou orientação política podem se tornar cada vez mais comuns.

A noção de privacidade muda.

A melhoria da experiência do usuário depende do acesso a seus dados cotidianos, mas serve também para um propósito não muito claro em uma sociedade capitalista: a comodificação dos perfis e a gerenciamento da disputa pela atenção (disputa pelos “corações e mentes” e bolsos) desses mesmos usuários.

Vigilância e voyeurismo combinam-se de modo complexo e assumem uma relação complexa com novas formas de prazer. A invasão de privacidade dá lugar à evasão de privacidade e seus novos padrões de exibição pública.

Os mediadores algorítmicos estão sempre presentes, mas são invisíveis. São eles que atuam sob nossas trocas simbólicas em ambientes digitias, mas não há um auditoria sobre seus “propósitos”. Ver postagem no grupo Sociologia e Comunicação no facebook.

Os algoritmos/bots são “seres” muito particulares e misteriosos que passam a conviver conosco. Como observa Steven Johnson, eles são meio textos, meio máquinas, meio atores, meio ambientes. Eles, praticamente, funcionam e podem ser modificados sem intervenção humana direta. São “inteligentes” em certo sentido.

Referindo-se a Foucault, Cheney-Lippold fala de uma soft biopolitic. Falaremos mais sobre isso na aula sobre as Novas Mídias e a Cultura do Algoritmo.

Franco Berardi: “O pensamento crítico morreu”

 



TRECHO DO TEXTO DE DELEUZE

“Encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um “interior “, em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Os ministros competentes não param de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo.

Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam. São as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares. “Controle” é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo.

Paul Virillo também analisa sem parar as formas ultrarápidas de controle ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado. Não cabe invocar produções farmacêuticas extraordinárias, formações nucleares, manipulações genéticas, ainda que elas sejam destinadas a intervir no novo processo.

Não se deve perguntar qual é o regime mais duro, ou o mais tolerável, pois é em cada um deles que se enfrentam as liberações e as sujeições… Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas.”

DELEUZE, Giles. Pos-Scriptum: Sobre as sociedades de controle. Conversações, 1972–1990. Rio de Janeiro: Ed.34, 1992



Literatura CyberPunk


TEXTO BASE

DELEUZE, Giles. Pos-Scriptum: Sobre as sociedades de controle. In: Conversações, 1972–1990. Rio de Janeiro: Ed.34, 1992

François Zourabichvili.  O VOCABULÁRIO DE DELEUZE

 

 



TEXTO COMPLEMENTAR

BRUNO, Fernanda. Monitoramento, classificação e controle nos dispositivos de vigilância digital. Revista FAMECOS Porto Alegre nº 36 agosto de 2008

CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. São Paulo: Paz & Terra, 2015. (Cap. 3 – Redes da Mente e Poder)

DAL BELLO, Cinthia. Visibilidade, vigilância, identidade e indexação: a questão da privacidade nas redes sociais digitais. LOGOS 34 O Estatuto da Cibercultura no Brasil. Vol.34, Nº01, 1º semestre 2011

GIRARDI Jr, Liráucio . O Estranho mundo da informação – e da materialidade – no campo da comunicação e-cOMPÓS, 2017 

PASQUALE, Frank. A Esfera pública automatizada: The Automated Public Sphere. Líbero. ANO XX – No 39 JAN. / AGO. 201

SANTAELLA, Lucia. Ecologia Pluralista da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2010

SILVEIRA, Sérgio Amadeu. O governo dos algoritmos. Revista de Políticas Públicas v.21 n. 1 p267-281, 2016



OS LIMITES DO CONTROLE – William S. Burroughs (Blog Maelström Life)

O texto de Willians Burroughs apareceu pela primeira vez em um evento, com o título preliminar de The impasses of control.

Em novembro de 1975, o escritor americano participa como conferencista no lendário colóquio Squizo Culture, realizado na universidade de Columbia. Sylvère Lotringer organiza o evento no qual objetiva apresentar em terras americanas as originais proposições políticas-filosóficas então surgidas na França, após o maio de 1968.

Foucault, Deleuze, Guattari, Lyotard e Foucaut aceitam o convite e comparecem. Junto com os franceses estarão artistas da vanguarda americana. Entre os convidados – John Cage, Cunningham, Jack Smith, Keith Richard… –, Burroughs fará parte da lista.

O escritor faz uma conferência que terá posterioridade. O também conferencista deste evento, Gilles Deleuze, será um dos compreenderam intensamente a importância da contribuição de Burroughs.



“O dr. Eric Schmidt declarou que o século XXI seria sinônimo do que chamou de “economia da atenção”, e que as corporações globais dominantes seriam aquelas bem-sucedidas na maximização do número de “globos oculares” que mobilizassem e controlassem.

A intensidade da competição diária por acesso a horas de vigília de um indivíduo e o controle delas é resultado da enorme desproporção entre os limites humanos, temporais, e a quase infinita quantidade de “conteúdo” à venda. Mas o sucesso corporativo também será medido pela quantidade de informação que pode ser extraída, acumulada e utilizada para prever e modificar o comportamento de qualquer indivíduo com identidade digital.”

Jonathan Crary, 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono






MOROZOV, Evgeny. ‘Big Data’ poderia ter impedido o 11 de setembro? Folha de S. Paulo.23/07/2013

As democracias estão em risco e só a tecnologia pode salvá-las – Marco Konopacki, Democracia Abierta, 30/03/2017 (o título foi um pouco infeliz, mas o texto é muito interessante)

A Field Guide to Fake News and Other Information Disorders – Public Data Lab

WhatsApp is causing a serious fake news problem in Brazil – VICE –By Noah Kulwin Jan 17, 2018

Good journalism won’t be enough -“If journalists want the public to listen, then journalists have to listen to the public. If journalists want the public to care, then journalists have to care about the public.” (Predictions for Journalism – Molly de Aguiar – NiemanLab

“Vejam o caso da Lego. Ao buscar ideias para novos produtos, eles perceberam que seus fãs poderiam ajudar. Para aproveitar esse potencial, eles criaram a plataforma Lego Ideas, que convida consumidores do mundo inteiro a enviar e avaliar sugestões para novos sets. Os mais votados são produzidos e os autores, recompensados. O ciclo de produção e go-to-marketdesses produtos é mais rápido que dos demais, assim, eles conseguem aproveitar as oportunidades de mercado para temas como Tron Legacyou Adventure Time.’


 

 


ALL WATCHED OVER BY MACHINES OF LOVING GRACE É UM DOCUMENTÁRIO PRODUZIDO EM 2011 POR ADAM CURTIS EM PARCERIA COM A BBC. O DOCUMENTÁRIO DE ADAM CURTIS É DIVIDIDO EM 3 PARTES DIFERENTES, CADA UMA FALANDO DE UM SUBTEMA RELACIONADO À NOSSA CRENÇA NAS MÁQUINAS E NO SEU PODER DE TRANSFORMAR A VIDA HUMANA.

 

SEU TÍTULO FAZ REFERÊNCIA A UM POEMA PUBLICADO EM 1967 SOB O MESMO NOME, CUJO O AUTOR, RICHARD BRAUTIGAN, FALAVA DE UMA SOCIEDADE ONDE OS HOMENS ESTAVAM LIVRES DE TRABALHO E A NATUREZA TINHA ALCANÇADO SEU ESTADO DE EQUILÍBRIO, TUDO GRAÇAS AO AVANÇO DA CIBERNÉTICA. (ARACELE TORRES, CIBERMUNDI)

 


All Watched Over By Machines Of Loving Grace (Richard Brautigan)

I like to think (and the sooner the better!) of a cybernetic meadow where mammals and computers live together in mutually programming harmony like pure water touching clear sky.
* I like to think (right now, please!) of a cybernetic forest filled with pines and electronics where deer stroll peacefully past computers as if they were flowers with spinning blossoms. * I like to think (it has to be!) of a cybernetic ecology where we are free of our labors and joined back to nature, returned to our mammal brothers and sisters, and all watched over by machines of loving grace.

Google – Minha atividade

Criptografia e Arte. Aos 12 anos, Joana César inventou um alfabetocifrado para escondersegredos do irmão maisvelho. Depois, espalhou sua arte pelas ruas do Rio, como neste muro no Jardim Botânico.

Victor Maristane, 23 anos, venceu o torneio A Story to Tell, da World Merit. Aluno da UFPE vence mundial com jogo que compara escolas e prisões. Para ele, essas instituições vêm falhando na missão de educar e reeducar. Marina Barbosa, G1 13/07/2015

É impossível escapar da vigilância – Playground BR, 2018

Depois de três anos de testes, este sistema começou a ser utilizado em algumas regiões do país. Apesar disso, ele não será obrigatório até 2020, caso no final desse período o “Social Credit System” vire realidade. Cada cidadão conta com uma pontuação básica entre 350 e 950 pontos, que estão associados ao documento de identidade chinês. A pontuação será modificada em tempo real, através de um aplicativo, de acordo com as infrações que a pessoa cometer.

How to see all the companies tracking you on Facebook — and block them – Jim Edwards – Business Insider, Aug. 12, 2015

Por que publicar mais dados abertos não é suficiente para empoderar os cidadãos – JORNALISMO DE DADOS – Adi Eyal IJnet 11/01/17

(“Mas simplesmente “liberar” dados não é suficiente. Até mesmo a conferência de alto nível da ONU sobre a revolução dos dados na África, realizada no ano passado, reconheceu que é improvável que os cidadãos usem dados abertos e, portanto, os intermediários – ou “infomediários” – devem desempenhar um papel importante”)

Mark Zuckerberg Is in Denial – Zeynep Tufekci New York times – The Opinion Pages | CONTRIBUTING OP-ED WRITER – 

The Real Problem is Not Misinformation ·

Slacktivism é um neologismo da língua inglesa formado pela amálgama das palavras slack e activism, o que significa “ativismopreguiçoso” ou “ativismo de preguiçosos”. Apesar do termo, originado em 1995, ter surgido com uma conotação positiva, atualmente o mesmo é usado de forma depreciativa e pejorativa para designar ações e campanhas (em geral, de internet e redes sociais) com pouco ou nenhum resultado prático efetivo em que as pessoas participam apenas para mostrar engajamento, buscar uma identidade ou aliviar consciência ou culpa , apesar de essa assunção não ter sido deduzida pela investigação (Ver: We are social) –   Slacktivism operates at three levels.



More is less

Rolf Dobelli, author of The Art of Thinking Clearly, explains: “News items are bubbles popping on the surface of a deeper world. Will accumulating facts help you understand the world? Sadly, no. The relationship is inverted. The important stories are non-stories: slow, powerful movements that develop below journalists’ radar but have a transforming effect. The more ‘news factoids’ you digest, the less of the big picture you will understand.” –

How the web distorts reality and impairs our judgement skills – The Guardian 13/05/2014


 
…quando existirem problemas com a informação, a solução oferecida é normalmenteacrescentar mais informações. A históriados documentos e comunidades apontapara a outra direção – na direção de menos informações e mais contexto…
 
Duguid & Brown, A vida social da Informação


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