flâneur

O “flâneur”/ A “flâneuse” ( RP, RTVi e JO)

(ATENÇÃO: Esta postagem destina-se apenas aos alunos e alunas de RP, RTVi e JO)

“A Rua” (João do Rio)

“O flâneur, a cidade e a vida pública virtual” (Mike Featherstone)

Poema de Pablo Neruda, “Sobre uma poesia sem pureza”.

(Exemplo de uma experiência realizada para PP:  Projeto Cidadania em 2015)

 



A Rua ( João do Rio) – Eu fiz uma seleção de algumas passagens da crônica

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós.

Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia.
 
 
Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua… Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias, manuseei in-folios especiais de curiosidade.
 
A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas por onde se anda nas povoações. Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma!…
 
Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes — a arte de flanar… Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua!
 
Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça… É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico.
 
Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da Multidões, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes…
 
O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno “convidado do sereno” de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio…
 
[Sobre as ruas] Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhes glórias e sofrimentos, matando-as ao cabo de um certo tempo.
 
Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas , snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue… Se as ruas são entes vivos, as ruas pensam, têm idéias, filosofia e religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livres-pensadoras e até ruas sem religião…
 
Nas grandes cidades a rua passa a criar o seu tipo, a plasmar o moral dos seus habitantes, a inocular-lhes misteriosamente gostos, costumes, hábitos, modos, opiniões políticas. Vós todos deveis ter ouvido ou dito aquela frase: — Como estas meninas cheiram a Cidade Nova! Não é só a Cidade Nova, sejam louvados os deuses!
 
Há meninas que cheiram a Botafogo, a Haddock Lobo, a Vila Isabel, como há velhas em idênticas condições, como há homens também. A rua fatalmente cria o seu tipo urbano como a estrada criou o tipo social… As ruas são tão humanas, vivem tanto e formam de tal maneira os seus habitantes, que há até ruas em conflito com outras. Os malandros e os garotos de uma olham para os de outra como para inimigos. Mas, a quem não fará sonhar a rua? A sua influência é fatal na palheta dos pintores, na alma dos poetas, no cérebro das multidões. Quem criou o reclamo? A rua! Quem inventou a caricatura! A rua! Onde a expansão de todos os sentimentos da cidade? Na rua! “
 


Texto inspirado em FEATHERSTONE, Mike. O flâneur, a cidade e a vida pública virtual. In: ARANTES, Antonio A. (org.). O Espaço da Diferença. Campinas/SP: Papirus, 2000

Ao falarmos da modernidade é impossível não citar Walter Benjamin e seus estudos sobre Charles Baudelaire e Paris. São neles que encontramos suas observações sobre o flâneur – uma figura típica da vida urbana parisiense do século XIX – que vamos tentar resgatar para pensar o mundo contemporâneo.
 
Vamos começar lembrando que a palavra flâneur é masculina e que o feminino é flâneuse. Aquilo que o flâneur faz é chamado de flânerie e está relacionado com o seu profundo envolvimento com a observação do cotidiano das metrópoles.
 
Mergulhar na cidade com todos os seus sentidos, adotando uma postura muito simples: “Tornar o estranho familiar e o familiar estranho”.
 
Como vimos, na seleção de algumas passagens da crônica do João do Rio, A rua, o flâneur é um vagabundo. Essa afirmação, entretanto, merece um comentário.
 
Se todo flâneur é um vagabundo, nem todo vagabundo é um flâneur. Ele é um vagabundo que reflete. Sua prática é uma arte, um ofício exercitado sempre que possível, sem hora marcada, sem duração determinada, sem trajeto pré-definido. Pode parecer fácil, mas perder-se na cidade não é uma tarefa tão fácil quanto parece para quem já a conhece.
 
 
Talvez, existam diversas formas de flânerie, mas a que destacamos aqui está diretamente relacionada ao trabalho de crônistas, poetas, fotógrafos, compositores populares, romancistas entre outros. E, por que não, publicitários, jornalistas, profissionais do audiovisual e relações públicas.
 
A flânerie não está relacionada apenas ao caminhar sem rumo e sem pressa pela cidade, mas em observá-la, registrar e classificar o que se vê, fazer associações, buscar intertextualidades no cotidiano.
 
É preciso ser uma espécie de “botânico do asfalto”.
 
Dito isto, por que não pensar essa experiências nos tempos em que vivemos, um tempo de formação de espaços híbridos, em que o espaço físico e o virtual integram-se de um modo cada vez mais complexo.
 
Por que não passamos a olhar a cidade e o nosso cotidiano como uma rede, ou um conjunto de textos, uma mapa, ou, ainda, uma cidade de dados (tão ao gosto da lógica digital). O que essas metáforas nos ajudam a enxergar?


Mike Featherstone observa que até o final do século XX, o ensaio era uma forma muito interessante de expor ideias. O aparecimento do hipertexto possibilitou um tipo de escrita por blocos de conteúdo que se interligam por meio de links. Eles não precisam ter uma forma linear, podemos navegar ou dar saltos por “pedaços de textos e ideias” de uma forma relativamente livre.

Mas, será esse um método totalmente novo?

Ele vai dizer que não. Walter Benjamin, já havia construído o seu projeto sobre as Galerias e a cidade de Paris baseado em algo parecido com o conceito do hipertexto. A navegação era organizada por letras.

Benjamin era um colecionador de “sinais e pistas” em sua busca por vestígios da experiência moderna. Partia em busca de panfletos, ingressos de teatro, fotografias, anúncios, diários, recortes de jornal. De algum modo, era possível passar de um a outro e tentar encontrar uma rede de conexões e montagens fragmentadas. A forma de expor seu trabalho seguia a própria lógica da vida urbana moderna. Seu texto era a representação da própria metrópole.

Esse método foi inspirado nos experimentos do surrealismo e nas possibilidades de fotomontagem trazidas pela máquina fotográfica.

Mas, o que era essa nova cena urbana, essa nova experiência?

A cidade é, então, uma fonte de alegorias… uma confusão de mercadorias e fragmentos da cultura de consumo…

A aceleração, o aumento da velocidade que caracteriza a vida na metrópole, associada à experiência constante do choque na multidão que toma conta das ruas, geram um tipo de hiperestímulo que lança o homem e a mulher moderna em um turbilhão de novas sensações e riscos. A vida vertiginosa da cidade, nas palavras de João do Rio – grande cronista carioca do século XIX-XX.

Mobilidade, hiperestímulo e choque são as palavras-chave.

Essa sobrecarga é acompanhada, por outro lado, por novas experiências de distração como as revistas e o cinema. A reação dos homens e mulheres modernas é caracterizada pelo que o sociólogo Georg Simmel chamou de “atitude blasé”.

Em meio a este cenário, surge o personagem que queremos estudar em nossa aula – o flâneur – e um certo tipo de atitude que o caracterizaria: o perambular sem rumo pela cidade, inspirado por um lema clássico do romantismo que é o de “tornar o familiar estranho e o estranho familiar”.

Há uma grande discussão a respeito da associação da flânerie a uma prática tipicamente masculina. No entanto, as flaneuses estavam ligadas às experiências de espaços como as galerias (os centros de compras da metrópole) e atividades de caridade e auxílio aos mais pobres. As Galerias eram um espaço totalmente novo de consumo e trazia experiências muito particulares.







Para as mulheres, haviam vários espaços restritos para a flânerie feminina: lojas de departamentos, casas de chá, restaurantes, hotéis, museus, galerias, exposições e. com grandes restriçoes, a literatura.

O problema desses espaços é que muitos deles estavam vinculados ao mundo do consumo. Por um certo preconceito, foram durante muito tempo desprezados pelos pesquisadores.

Um mundo de mercadorias cresce à volta dos habitantes das cidades – inclusive por meio dos anúncios – e transforma-se em um novo tipo de experiência que podem parecer gratuitas, passear pelas galerias e observar as vitrines, esses ambientes estetizados.

Ao lado dessa flânerie pela cidade, novas experiências sensoriais são trazidas pelo cinema, pela fotografia, pela publicidade que cresce vertiginosamente.

Hoje, é possível o acesso por transmissão digital, por cabo ou por streaming de diversos tipos de conteúdos audiovisuais, por meio de diversos tipos de aplicativos.

Com os meios de comunicação tradicionais como a televisão, tínhamos uma forma curiosa de experiência: um tipo de mobilidade privatizada. O lar passava a ser o lugar a partir do qual abria-se uma janela para o mundo. Ele era o centro para o qual convergiam revistas, jornais, panfletos e programas de rádio e televisão. Com o surgimento dos transístores, foi possível dar certa mobilidade ao rádio que podia ser ouvida em lugares públicos como campos de futebol e bares, por exemplo.

As novas mídias digitais trouxeram mudanças nesse sentido. O aparecimento do hipertexto e dos aplicativos tornaram possível um novo tipo de “passeio” por esse espaço. Não há mais uma programação, horários fixos de exibição, caminhos pré-estabelecidos.

A TV digital possibilita não apenas o zapping, mas o zipping (avançamos sobre as partes do filme ou do episódio que não gostamos ou que nos deixam entediados), o que muda nossa experiência de fruição.

Ver (Museum of Broadcast Communications)

Essa comunicação não é mais unidirecional (dos meios de comunicação para os espectadores ou ouvintes). Ela permite tipos diferentes de interações (um para um – um para poucos – poucos para poucos – poucos para muitos – muitos para muitos – muitos para poucos).

Tudo se transforma em um grande banco de dados que pode ser rastreado, mapeado e analisado. A experiência pode ser individualizada a partir de padrões de consumo e navegação adotados pelos usuários. O antigo espectador ou ouvinte, agora, torna-se produtor de conteúdo (podendo não apenas produzir conteúdos novos como remixar conteúdos já existentes e distribuí-los para quem quiser)

É possível flanar sobre o espaço urbano e o espaço virtual, no entanto, há diferenças importantes nessas experiências. A velocidade com que podemos nos deslocar na internet (essa cidade de dados) não tem equivalente no espaço urbano, limitado pelo nosso corpo e pelos meios mecânicos de transporte.

Para realizar essa caminhada, dependemos de alguns companheiros muito particulares: os aplicativos e os algoritmos.

Essas reflexões inspiraram um gênero literário novo, conhecido como movimento cyberpunk. Um dos seus principais representantes é o escrito William Gibson, que cunhou o termo ciberespaço em sua obra Neuromancer de 1986. Um ambiente de simulação e formação de realidade ampliadas que traz novas possibilidades de produção de narrativas e ambientes de interação.

Se no século XIX, o romance policial dava suas caras e o detetive era aquele que conseguia desvendar os crimes em um novo ambiente urbano (caótico). O flâneur não deixa de ser uma espécie de detetive do cotidiano.

A morte do flâneur já foi anunciada várias vezes desde o século XIX.

Será que o aparecimento dos meios de transporte (como o trem, o metrô, o ônibus, os automóveis, as bicicletas) modificaram a experiência da flânerie ou acabaram com ela?

Será que a nossa navegação pelos mecanismos de busca ou pelos aplicativos são uma nova forma de flanar pelo mundo de dados?

Será que não queremos chegar cada vez mais rápido àquilo que procuramos e, por isso dependemos cada vez mais os recursos de recomendação e avaliação de reputação de livros, filmes, séries etc.?

Não queremos perder tempo ou não queremos nos perder e abrir a possibilidade de novas descobertas?



Sobre uma poesia sem pureza

Pablo Neruda

É muito conveniente, em certas horas do dia ou da noite, observar profundamente os objetos em descanso: as rodas que percorreram longas, poeirentas distâncias, suportando grandes cargas vegetais ou minerais, os sacos das carvoarias, os barris, as cestas, os cabos e asas dos instrumentos do carpinteiro. Deles se desprende o contato do homem e da terra como uma lição para o torturado poeta lírico. As superfícies usadas, o gasto que as mãos infligiram às coisas, a atmosfera frequentemente trágica e sempre patética destes objetos infunde uma espécie de atração não desprezível à realidade do mundo. A confusa impureza dos seres humanos se percebe neles, o agrupamento, uso e desuso dos materiais, as marcas do pé e dos dedos, a constância de uma atmosfera humana inundando as coisas a partir do interno e do externo.Assim seja a poesia que procuramos, gasta como por um ácido pelos deveres da mão, penetrada pelo suor e pela fumaça, cheirando a urina e a açucena salpicada pelas diversas profissões que se exercem dentro e fora da lei. Uma poesia impura como um traje, como um corpo, com manchas de nutrição, e atitudes vergonhosas, com pregas, observações, sonhos, vigília, profecias, declarações de amor e de ódio, bestas, arrepios, idílios, credos políticos, negações, dúvidas, afirmações, impostos. A sagrada lei do madrigal e os decretos do tato, olfato, paladar, vista, ouvido, o desejo de justiça, o desejo sexual, o ruído do oceano, sem excluir deliberadamente nada, sem aceitar deliberadamente nada, a entrada na profundidade das coisas num ato de arrebatado amor, e o produto poesia manchado de pombas digitais, com marcas de dentes e gelo, roído talvez levemente pelo suor e pelo uso. Até alcançar essa doce superfície do instrumento tocado sem descanso, essa suavidade duríssima da madeira manejada pelo orgulhoso ferro. A flor, o trigo, a água têm também essa consistência especial, esse recurso de um magnífico tato. E não nos esqueçamos nunca da melancolia, do gasto sentimentalismo, perfeitos frutos impuros de maravilhosa qualidade esquecida, deixados de lado pelo frenético livresco: a luz da lua, o cisne ao anoitecer, “vida minha” são sem dúvida o poético elementar e imprescindível. Quem foge do mau gosto cai no gelo.



Walter Benjamin (1892-1940)

Texto Base

FEATHERSTONE, Mike. O “flâneur”, a cidade e a vida pública virtual. In: ARANTES, Antonio A. (org.). O Espaço da Diferença. Campinas/SP: Papirus, 2000.

Texto Complementar

BALBI, Thiago Machado Balbi, FERRARA, Lucrécia D’Alessio Ferrara. Por uma teoria psicogeográfica da comunicação. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 41, p. 14-34, jan./abr. 2018

PEREC, Georges. Aproximações do quê? Alea, Rio de Janeiro , v. 12, n. 1, p. 177-180, June 2010

Vida: Modo de Usar. São Paulo : Companhia das Letras, 2009 (capítulo 1: Escadarias)

PINO, Claudia Amigo. O espaço modo de usar: Georges Perec Lettres française, n.7, 2006

O OBSERVADOR DOS PANORAMAS E O FLÂNEUR: REFLEXÃO SOBRE A OBRA PARIS, A CAPITAL DO SÉCULO XIX DE WALTER BENJAMIN – Autora : Paula Tárcia Fonteles Silva/José Expedito Passos Lima



Minha participação na reportagem “Divagar por aí” da Revista “E” do SESC em 30/01/2018

Vídeo “Flanantes” (skate)

Revista Flâneur (Berlim)

Canal Motoboy




+ REFERÊNCIAS

(Poesia, Música, Cinema e Artigos relacionados ao tema)

ROLEZINHO: TERRITÓRIOS E TERRITORIALIDADES EM CIBERCULTURAS – Eliane Costa e Jorge Luiz Barbosa* – Z Cultural

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