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Aula 5: Mercados Linguísticos e Poder Simbólico (Pierre Bourdieu)

Vamos refletir, agora, sobre os atos de fala, os discursos, as narrativas que são fundamentais para a nossa existência como seres humanos. A eficácia de um discurso está no fato de funcionar como DOXA, isto é, como uma verdade “evidente” sobre a qual nunca pensamos.

É o que Wittgenstein, em Investigações filosóficas, quis dizer:

“Aquilo que se sabe quando ninguém nos interroga, mas que não se sabe mais quando devemos explicar, é algo sobre o que se deve refletir. (E evidentemente algo sobre o que, por alguma razão, dificilmente se reflete)”.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que a nossa capacidade para falar depende de algumas competências específicas que desenvolvemos: uma Competência Técnica e uma Competência Social.

Nossa competência técnica aparece pela nossa própria condição humana: seres humanos podem falar, ou seja, tem em seu corpo os meios físicos (anatômicos e neurológicos) necessários para produzir a fala.

No caso da competência social, ela é adquirida socialmente, uma vez que, a fala precisa ser aprendida.

Falar não consiste apenas em emitir palavras organizadas em um certo código linguístico, mas também é preciso saber o que falar, com quem, quando e de que modo.

Se não falamos com qualquer um, de qualquer modo, sobre qualquer coisa, a qualquer momento, isso significa que a nossa fala pressupõe alguns rituais sociaisou jogos de linguagem. Esses jogos ou rituais dependem do desenvolvimento de certos tipos de sensibilidade.

Vamos chamar essa sensibilidade de senso de oportunidade e senso de aceitabilidade.

  • O  Kairós ou o Senso de Oportunidade 

Diziam os sofistas que, no aprendizado da arte de falar bem, é preciso estar atento para a percepção do momento oportuno da fala (kairós). Pouco importa o que dissermos se não for dito de maneira oportuna, no momento certo. Essa competência está relacionada como o (re) conhecimento da situação e do momento da fala.

  • O Senso de Aceitabilidade

Também é importante lembrar que quando falamos, produzimos um produto muito especial que não está sujeito apenas a interpretação, mas, também, a avaliação.

Muitas vezes, a condição necessária para que o discurso seja aceito não está no entendimento que temos dele, mas do valor que damos a quem o pronuncia.

Portanto, qualquer discurso produz signos a serem interpretados, certamente. Mas, ao mesmo tempo, eles apresentam-se como signos de riqueza (esses discursos são valorizados ou desvalorizados) e signos de autoridade (eles tem o poder de realizar coisas no mundo)

Tentem identificar o funcionamento do senso de aceitabilidade nesta passagem do filme “Os dois filhos de Francisco”.

Vamos analisar, agora, o conceito de mercado linguístico:

Carregamos conosco esse conjunto de disposições – uma espécie de “memória”  – das nossas experiências com a fala em determinadas situações (falando com os pais, amigos, vendedores, professores, clérigos).

Esse conjunto de disposições é o que chamamos de nosso habitus linguístico – um certo modo de falar. Ele faz com que tenhamos condições de antecipar algumas reações das pessoas a quem nos dirigimos e que sejamos capazes de reconhecer determinadas situações sociais.

Essas situações que aprendemos a reconhecer são os chamados mercados linguísticos, uma vez que, neles, a nossa fala pode ser valorizada ou não, pode sofrer concorrência, pode ser monopolizada etc.

Hermione (Harry Potter)

Quando produzimos um discurso, desenvolvemos também uma antecipação das condições em que aquele discurso será recebido. Essa antecipação, quando negativa, pode levar-nos a um conjunto de medidas de autocensura. 

Por outro lado, alguns acabam agindo como porta-vozes da opinião de uma série de pessoas em um mercado linguístico.

Eles ou elas são capazes de falar como representantes de um grupo, colocam-se como um grupo falando e, assim, fazem com que determinados interesses e motivações ganham um lugar em meio às palavras e transforme-se em discurso que merece ser ouvido.

Será que isso que ocorre no chamado “Mansplaining”?

Será que o movimento feminista, por exemplo, precisa enfrentar este tipo de questão?

DIÁLOGOS PIERRE BOURDIEU E O JORNALISMO – FIAM/FAAM, 23 de agosto de 2017

Você pode ouvir a apresentação sobre a obra “A Economia das Trocas Linguísticas” e acompanhar os slides.

Você pode ouvir uma palestra minha no audiocast abaixo e acompanhar nos slides.

* * *

O poder simbólico é um poder (econômico, político, cultural ou outro) que consegue ser alvo de reconhecimento, por isso, é preciso entender que se trata de um tipo de poder que não é físico (embora possa ter consequências reais). Ele é exercido no plano do sentido, na sua capacidade de gerar conhecimento e reconhecimento.

As palavras exercem, assim, um poder tipicamente mágico: fazem ver, fazem crer, fazem agir.

Mas essa magia, como toda outra, não pode ser explicada apenas por esse poder do produtor do discurso. É preciso ir além e reconhecer as condições sociais que possibilitam essa eficácia mágica das palavras.

Quem fala? Quem está autorizado a falar? De que lugar falamos?

Para completar, é preciso observar que esse poder das palavras só pode ser exercido sobre aqueles que estão dispostos a ouvi-las, a crer nelas.

Vamos observar o que dizem as duas citações abaixo:

“…os agentes sociais e os próprios dominados estão unidos ao mundo social (até mesmo ao mais repugnante e revoltante) por uma relação de cumplicidade padecida que faz com que certos aspectos deste mundo estejam sempre além ou aquém do questionamento crítico” (Pierre Bourdieu em O que falar quer dizer)

“O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir”. Michel Foucault em Microfísica do poder. 



Lutas Simbólicas – leve Bourdieu para sua casa e entenda como o jogo é jogado.

BAIXE AQUI “EDITAL DE REGRAS”:https://goo.gl/vqrXQY

DOWNLOAD “IMPRIMA E JOGUE”:https://goo.gl/vGMG9t

Olá pessoas amadas… É com alegria que compartilhamos o Edital de Regras do jogo Lutas Simbólicas. 
Por favor, sintam-se livres para comentar e nos mandar dicas e sugestões.



TEXTO BASE

LINS, Daniel (org). Pierre Bourdieu: o campo econômico. Campinas (SP), Editora: Papirus, 200 (O que é falar? p. 51-57)

TEXTO COMPLEMENTAR

GIRARDI Jr, Liráucio. Pierre Bourdieu: Mercados Linguísticos e Poder Simbólico. Famecos, Porto Alegre, v. 24, n. 3, setembro, outubro, novembro e dezembro de 2017

KARHAWI, Issaaf . Influenciadores digitais: conceitos e práticas em discussão. Revista Communicare. Volume 17 – Edição especial de 70 anos da Faculdade Cásper Líbero

LEMOS, André. A nova esfera conversacional. in Dimas A. Künsch, D.A, da Silveira, S.A., et al, Esfera pública, redes e jornalismo., Rio de Janeiro, Ed. E-Papers, 2009,  pp. 9 – 30.

LIMA, Marcus Antônio Assis. Do ‘direito à voz’ à ‘voz como valor’: cultura e política no neoliberalismo. Intercom, Rev. Bras. Ciênc. Comun.,  São Paulo ,  v. 35, n. 1, p. 335-337,  June  2012 .   (resenha)


REPORTAGENS

O dia em que relatos do primeiro assédio tomaram conta do Twitter – El País – MARINA ROSSI – 23/10/2015

TV peruana agora tem um noticiário em quéchua. Por que isso é um gesto político e social -Rafael Iandoli – Nexo 17 Dez 2016

Exército de fact-checking combate notícias falsas – Bianca Fortis, MediaShift | 06/11/17

Claire Wardle: combater a desinformação é como varrer as ruas – Observatório da Imprensa – Por Angela Pimenta em 14/11/2017 na edição 966

(A versão raiz e a versão nutela da informação)

Astroturfing é a prática de mascarar os patrocinadores de uma mensagem ou organização (ex: política, publicitária, religiosa ou de relações públicas) com o intuito de fazer parecer que ela tenha se originado de ou fosse apoiada por membros de movimentos populares espontâneos da sociedade, estes também conhecidos em inglês por grassroots. É uma ação que visa dar credibilidade a declarações ou organizações sem, no entanto, fornecer informações a respeito da conexão financeira de sua fonte.O termo astroturfing deriva-se de AstroTurf, uma marca de grama sintética projetada para dar a aparência de um gramado natural. … A implicação por trás do uso do termo astroturfing é de que não existem movimentos grassroots “verdadeiros” ou “falsos”, mas sim de apoio “falso” ou “artificial”, ainda que alguns de seus praticantes defendam a sua prática (ver seção “Justificação” abaixo).

Na Internet, praticantes de astroturfing utilizam software com o objetivo de disfarçar as suas reais identidades. Às vezes, uma única pessoa opera vários perfis que passam a impressão de que existe um amplo apoio em favor de suas agendas. Alguns estudos sugerem que essa atividade é capaz de alterar a maneira de pensar do público e de criar dúvidas o suficiente para inibir ações.

(Wikipédia)

MM360 explica os termos gaslighting, mansplaining, manterrupting e bropriating–  Postado em: 18/11/2016


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