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Aula 7: Variações sobre o tema do Panóptico

O QUE É UM DISPOSITIVO?

Nesta postagem vamos apresentar a ideia de dispositivo em MIchel Foucault (1926-1984) para podermos pensar um tema muito particular de sua obra “Vigiar e Punir”: o PANÓPTICO.

O poder gerado no dispositivo não delimita apenas uma forma de repressão ou interdição, não se trata, somente, de uma obrigação, mas de um regime de produção de saberes e controles, um poder que se apóia nos agentes sociais por ele mesmo investidos, que também os incitam, induzem e seduzem. Esse poder não é propriamente possuído, mas exercido em meio a um campo de posições e relações estratégicas dispersas pelo mundo social.

Para Foucault, os dispositivos são “operadores materiais do poder”. Eles estão presentes no discurso, nas instituições, nas tecnologias, organizações arquitetônicas, regulamentos e nas práticas cotidianas. Eles são “diagramas” de forças que produzem tipos particulares de “assujeitamento”, uma tecnologia do poder.

Para o filósofo italiano Giorgio Agamben o dispositivo pode ser qualquer coisa capaz de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes.” (Giorgio Agamben. O que é um dispositivo? p.13).

Para ele, não somente as prisões, os manicômios, as escolas e as fábricas podem ser dispositivos, mas, também, uma caneta, um livro, a agricultura, celulares, códigos de programação. Até a linguagem poderia ser considerada um dispositivo.

O PANÓPTICO

O Panóptico, tema da nossa aula, é um tipo particular de dispositivo.

Vamos desenvolver um pouco mais o modo pelo qual Foucault descobre essa ideia em uma obra do século XVIII do filósofo e jurista Jeremy Bentham. Seu título: “O panóptico”.

Nos anos 60, Foucault fazia parte de uma comissão que avaliava as condições dos presídios na França e, nesse período, passa a se interessar cada vez mais por um tema que culminará na sua obra “Vigiar e Punir”. Em um de seus capítulos, “O Panoptismo”, ele procura entender como surgiram as novas formas de vigilância e punição modernas.

“O princípio é: na periferia, uma construção em anel; no centro, uma torre; esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. Basta então colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante.” (Michel Foucault. Microfísica do Poder p. 210)

Foucault observa que o século XVIII é marcado por uma profunda aversão à escuridão (dos lugares, das coisas, das pessoas, da verdade). Um novo regime de visibilidade vai ser produzido. O Panóptico é o contrário das masmorras. Ele controla pela expansão da transparência, uma tecnologia que a tudo ilumina e torna visível.

O dispositivo panóptico faz com que tenhamos sempre a sensação de estarmos sendo vigiados. Essa sensação, por incrível que pareça, faz com que seja produzida por nós mesmos uma espécie de auto-vigilância.

Para isso, esse dispositivo produz uma dúvida fundamental: “há alguém olhando?”


VARIAÇÕES SOBRE O TEMA


O SINÓPTICO

Bauman, um sociólogo que já estudamos, explora uma ideia de Mathiensen (The viewer society): o sistema de vigilância atual não é apenas um panóptico, em que bastam poucas pessoas para vigiar muitas, mas uma espécie de sinóptico, em que muitos são capazes de vigiar poucos. Além disso, ninguém propriamente invade nossa vida em busca de informações sobre nós. Somos nós mesmos que, voluntariamente, expomos os nossos mais íntimos desejos e afazeres.

Saímos de um sociedade preocupada com a “invasão de privacidade” e entramos em um sociedade com “evasão de privacidade”. Não somos coagidos nos mostrarmos publicamente nas redes sociais, somos seduzidos pela visibilidade que ela proporciona – o sonho de nos tornarmos “celebridades”. É preciso vigiar-se constantemente diante dos olhares dos outros. É preciso uma auto-disciplina contínua. É preciso ser um empreendedor da imagem de si mesmo ininterruptamente. Jonathan Crary chega a nos lembrar que essa demanda por exposição 24horas/7dias por semana, afeta profundamente o nosso sono, por exemplo.

O BAN-ÓPTICO

Bauman também nos fala de uma nova modalidade de vigilância que não consiste em vigiar a si mesmo como o objetivo de produção de uma disciplina, mas um controle sobre a sensação de insegurança manifestada pela imagem do terrorismo, do imigrante, dos “viciados”, dos pobres. Inspirado em Didier Bigo, Bauman observa que há um profundo desejo de se excluir o que é visto como um “lixo humano”, segregá-los e vigiá-los para que não saiam desse espaço de exclusão (Base de Guantanamo, os diversos tipos de “Muros” ou a série Walking Dead) . Parodiando a obra de Foucault, é preciso “Banir e Vigiar”

REGIMES PANÓPTICOS, ESCÓPICOS E DE RASTREAMENTO

Lucia Santaella identifica três regimes de vigilância contemporâneas que se complementam de diversas formas:

  1. o regime panóptico já foi identificado acima
  2. o regime escópico é marcado pelo avanço das tecnologias eletrônicas e tem mudado radicalmente a paisagem urbana e, até mesmo, os espaços internos das casas, fábricas, escolas etc.: as câmeras de vigilância. Esse regime escópico recebeu um novo aliado: os drones.
  3. o regime de rastreamento ou tracking é a marca das chamadas mídias digitais e caracteriza o regime de vigilância típico da internet. Ele está sob o domínio de especialistas em programação (hackers), monitoramento de redes sociais (SEO – Search Engine Optimization) e todos os debates sobre o direito ao uso da criptografia como um modo de se proteger do rastreamento de todos os nossos passos nas mídias e plataformas digitais. Para Santaella: “O tratamento dos dados coletados engloba uma gama de procedimentos, potencializados pela digitalização, que se distribuem pela gravação, estocagem, transmissão, recuperação, verificação, comparação, análise, categorização e pelo monitoramento, processamento e uso, envolvendo sempre mais manipulação que coerção” (Lucia Santaella. A Ecologia Pluralista da Comunicação. p. 162). Alguém falou em “algoritmo”? “Big Data”?


TEXTO-BASE

FOUCAULT, Michel. O panoptismo. In: Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1987.


TEXTO COMPLEMENTAR

CARIBÉ, João Carlos R. Ética na sociabilização mediada por algoritmos. IBICT, UFRJ, junho 2017 [sobre o Panspectro]

CHIGNOLA, Sandro. Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Humanitas ano 12 · nº 214 · vol. 12 · 2014 ·

MACHADO, Arlindo. Máquinas de Vigiar. Revista USP set/out/nov. 1990

(Artigo de Mathiensen sobre o Sinóptico) Mathiesen, Thomas, (1997) “The viewer society: Michel Foucault’s ‘Panopticon’ revisited” from Theoretical criminology : an international journal 1 (2) pp.215-232, London: Sage

SANTAELLA, Lucia. Ecologia Pluralista da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2010


‘Despreparada para a era digital, a democracia está sendo destruída’, afirma guru do ‘big data’ – Gerardo Lissardy – BBC Brasil, 09/04/2017

What Synthetic Biology Has in Common With Queer Theory -Deciding what organisms (and people!) are “related” to each other is more complicated than it seems. – By Sophia Roosth, Slate, 25/04/2017

Aniversário de George Orwell é comemorado com chapéus de festa em câmeras de vigilância (Ideia da dupla holandesa Front404 é chamar a atenção para a quantidade de câmeras que nos vigiam sem que percebamos)

Para pensar a ideia de dispositivo ver esta reportagem:The Subtle Sexism Of Your Open Plan Office (A remarkable new study documents the experiences of women in an open office designed by men) By Katharine Schwab, Co.Design, 05/07/2018

Agência Pública – Vigilância


APLICATIVOS/PLUG-INLightbeam for Firefox Lightbeam is a Firefox add-on that enables you to see the first and third party sites you interact with on the Web. Using interactive visualizations, Lightbeam shows you the relationships between these third parties and the sites you visit.

When you visit a website, online trackers and the site itself may be able to identify you – even if you’ve installed software to protect yourself. It’s possible to configure your browser to thwart tracking, but many people don’t know how. Panopticlick will analyze how well your browser and add-ons protect you against online tracking techniques. We’ll also see if your system is uniquely configured—and thus identifiable—even if you are using privacy-protective software. Conheça o site do ACTANTES – Vigilância e Criptografia

About the Guardian Project

Tor Project


MÚSICAS

ANOHNI — Watch Me (HQ) from Savely Ulbashev on Vimeo.


VÍDEOS

Este vídeo é um trabalho de curso apresentado na faculdade Cásper Líbero, feito pelas alunas/aluno Elis Azenha, Giovanna Galvani, Heitor Ribeiro e Miréia Figueiredo, sob a coordenação do professor Rafael Grohmann (2016)


Panopticon Times: “Panóptico é um modelo de prisão desenhado por Jeremy Benthan para que apenas um único homem pudesse observar todos os prisioneiros, sem que soubessem que estavam sendo observados. Esse modelo foi expandido para a sociedade e muitos hoje acreditam que vivemos sendo observados, em uma sociedade do espetáculo, onde quando não somos observados por câmeras e mecanismos de controle, expomos nossa privacidade em redes sociais. Para nos libertar disso, buscamos uma Belgian Saison, refrescante, frutada e complexa e à ela adicionamos Cajá-Manga e um Dry-Hop generoso do lúpulo americano Equinox, para acentuar ainda mais o cítrico e tropical dessa cerveja que visa te desligar desse controle e o religar ao que realmente importa, o prazer de uma boa cerveja com as pessoas de quem você gosta.”

INFORMAÇÕES:
  • Copos: Snifter, Iso ou Bordeaux
  • Temperatura: 12-15ºC
  • Amargor: 60 IBU

Hakuna Metadata – Exploring the browsing history

Metadata is data about data. In an e-mail, the data is the content of the e-mail and metadata is the information about the e-mail. So, it covers information like who is it from or who sent it, the date and time, the subject, network information etc. When we are browsing the internet, data is represented by the content of the websites that we visit, but the metadata are the website addresses (so-called “URLs”), the time of visit and the number of visits, network information, and so on.

(…)

Metadata was not invented to help privacy invaders. It was intended to speed up the process of classification and indexing of any kind of bulk data, without looking at the data itself. By definition, metadata enforces data protection by letting someone process the data, without even looking at the content inside – sort of like an envelope in traditional postal services.

Para saber mais sobre o assunto:

Hakuna Metadata – Exploring the browsing history (28.03.2017) http://www.privacypies.org/blog/metadata/2017/02/28/hakuna-metadata-1.html

Hakuna Metadata – Browsing history visualization for Linux + Firefox combo https://github.com/sidtechnical/hakuna-metadata-1

Metadata Investigation: Inside Hacking Team (29.10.2015) https://labs.rs/en/metadata/

(Contribution by Siddharth Rao, Ford-Mozilla Open Web Fellow, EDRi)



Does anyone remember “On the Internet, nobody knows you’re a dog?” Today, everyone not only knows that you’re a dog, but also what brand of kittle you eat and what hydrant you prefer to piss on, and yeah we’ve profiled that white dog with black ears as well pic.twitter.com/1cJK8vYPqj

— Tim Wu (@superwuster) 25 de abril de 2018




Privacidade – Quebrando o Tabu – GNT Play

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