Durkheimestado de anomiafatos sociais

Émile Durkheim (1858-1917) – Parte II

“… a verdadeira justificação para as práticas religiosas não está nos fins aparentes que buscam, mas na ação invisível que exercem sobre as consciências…” (Durkheim. As Formas Elementares de Vida Religiosa pp. 430-431)

A importância dos rituais nas sociedades humanas

Neste momento, vamos nos concentrar na importância que os rituais têm na conservação e reprodução das sociedades humanas.

Vamos nos concentrar em uma obra específica de Durkheim: “As formas elementares de vida religiosa”.

Em primeiro lugar, Durkheim observa que nenhuma instituição humana repousa sobre o erro ou a mentira, ou seja, se ela existe, existem condições sociais que a fizeram assim. Essa é a sua verdade. Por isso, é incorreto dizer que existem religiões falsas ou verdadeiras. Cada uma, a seu modo, responde a determinadas condições sociais de existência.Cena do filme Em busca do cálice sagrado do Monty Phyton


Durkheim observa que as religiões acabam por produzir uma espécie de divisão do mundo entre o espaço do sagrado e o espaço do profano.

Elas delimitam territórios: igrejas, sinagogas, terreiros, solos sagrados etc.

Elas produzem diversas representações/narrativas: são uma organização do mundo (uma cosmologia)

Esse espaço sagrado pode ser demarcado de diversos modos/suportes físicos ou simbólicos: símbolos e objetos.

Além disso, para serem ritualísticos, os encontros realizados nesses espaços devem ter uma regularidade, devem ter uma frequência, seguir certos protocolos e gerar expectativas muito particulares quando acontecem.

Os rituais aparecem nesse contexto.

Um conjunto de práticas, protocolos e representações ocorridas em determinados espaços sagrados com determinada regularidade, envolvendo todo um conjunto de “fiéis”.

É importante observarmos que o sagrado e o profano não podem se tocar. Por isso, não se pode entrar no espaço sagrado de qualquer modo. Há uma preparação especial ou algumas restrições.

Aquilo que se chama de profano diz respeito às nossas atividades cotidianas rotineiras (estudar, trabalhar, diversão etc.)

Durkheim observa que a verdadeira força da religião está nos rituais, pois eles são a forma pela qual a fé e a experiência re-ligação com o sagrado é revigorada de tempos em tempos.

Precisamos prestar atenção ao fato de que os rituais sempre têm algo de estético.

Eles fazem com que a dor, a morte, o medo, a alegria possam adquirir uma forma publicamente expressa e socialmente aceita como uma espécie de representação dramática (teatral).

Os rituais permitem, também, que por meio de certas práticas comuns, um grupo possa tomar consciência de si mesmo.

Avançando um pouco mais nesse tema, podemos dizer que os rituais podem ser:

NEGATIVOS (proibições, tabus, interdições): jejum, abstinência sexual, não pronunciar um determinado nome, não tocar determinado objeto etc. (negativo, aqui, não significa ruim ok?!)

POSITIVOS (incentivam ou toleram, excepcionalmente, certas práticas) : cerimônias de comunhão, refeições comunitárias, festas

PIACULARES: luto

Para Durkheim, o sagrado pode assumir formas muito particulares. Por exemplo:

Ele é CONTAGIOSO. Tudo aquilo que entra em contato com o sagrado, acaba por se tornar, de algum modo, sagrado também.

Tente identificar a questão do sagrado como “contágioso” nesta cena de ” Vida de Brian” do Monty Phyton? Veja, também, como funciona a predisposição à crença e o efeito que ela gera.

Outra característica, os fragmentos dos objetos sagrados continuam sagrados – a sua condição de sagrado não pode ser desfeita de um modo simples.

Um pequeno pedaço da “Cruz” em que Cristo teria sido crucificado acaba por representar a própria cruz.

E completa:

A eficácia moral do rito, que é real, faz acreditar na sua eficácia física, que é imaginária…

[Elas] criam uma predisposição à crença que excede as provas, que leva a inteligência a passar por sobre a insuficiência das razões lógicas…porque servem para refazer moralmente os indivíduos e os grupos é que eles passam por ter ação sobre as coisas.”

(Durkheim. As Formas Elementares de Vida Religiosa pp. 430-431)

Como poderíamos utilizar esta passagem para pensarmos os “testemunhos” que encontramos em várias religiões?


Referências Bibliográficas

Vocês podem encontrar uma excelente seleção de textos e análise das obras aqui:

DURKHEIM, Émile. As formas elementares de vida religiosa. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2001

QUINTANERO, Tânia; BARBOSA, Maria Lígia de O. ; OLIVEIRA, Márcia G. Um toque de clássicos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

SEGALEN, Martine. Rios e Rituais Contemporâneos. Rio de Janeiro: ed. FGV, 2002 –  Rituais – A função comunicativa do rito 

Como complemento, eu gosto bastante desta obra:

COSTA, A. F. O que é a Sociologia? Lisboa: Difusão Cultural, 1992.

E as coletâneas da Coleção Grandes Cientistas Sociais da editora Ática.


CAMPANELLA, Bruno. Novas práticas, antigos rituais: A organização do cotidiano e as configurações de poder na mídia. Revista GEMInIS // Edição Especial – JIG 2014

LUKES, Steven. Bases para a interpretação de Durkheim

RODRIGUES, José Albertino (org.). Émile Durkheim. São Paulo: Ática, 2000

Se gostar, compre o livro!


VÍDEOS/FILMES

O que falta no mundo é um pouquinho de ritualização…

Como pensar essa campanha a partir da noção de ritual e quais problemas ela traria hoje?

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